Pai_dos_Povos

Segunda-feira, 9 de Agosto de 2004

Feiras de Artesanato

Ora bem, isto é assim: como todos sabem no verão pululam as feiras disto e daquilo, do livro, de artesanato, de doçaria, do caralho, etc etc. As feiras de artesanato são um exemplo de como o verão português e algarvio, é do melhor que o capitalismo tem para nos oferecer. Imaginemo-nos a entrar num qualquer cidade, onde nos deparamos com um cartaz, daqueles feitos de saco de batata, onde, numa letra muito mal feita à mão, nos informam, feira de artesanato e produtos regionais. Claro que o verdadeiro bimbo em férias não pode faltar, e depois há de dizer lá na cidade que foi a uma feira e comprou produtos típicos. Estas feiras, basicamente, organizam-se assim: uma data de barraquinhas daquelas onde se vende rifas, mete-se lá uns pretos e uns sul-americanos e tá a maré feita.


Eu como bom português, e como bom apreciador de kitsch, não costumo faltar a uma. Vou aqui, sumariamente, descrever a última a que fui - e são todas iguais. Aquilo tem para aí umas 2 filas de barracas, com 10 stands cada uma. De um lado o artesanato africano, do outro o artesanato sul americano. Comecemos pelo africano, para não ser acusados de discriminação. Bem, para começar temos um barraca do Quénia, com produtos a 1,5¬ em plástico, talheres, elefantes, congas, tudo em plástico e com a inscrição "Made in Kenya". 2º stand - produtos a 1,5 ¬ em plástico, talheres, elefantes, congas, tudo em plástico, com a inscrição "Made in Lesotho". Depois, "Made in Malawi", "Congo", "Zaire", etc etc. Até pauzinhos chineses típicos do Togo encontrei. E entretanto, temos os vendedores a ouvir musica pop tipicamente africana em transistors tipicos, "made in Libéria".


Tambem existem produtos mais caros, como as peças de mobiliário-artesanato, que ao contrário do que uma primeira vista, de um leigo, nos pode dizer, são produtos diferentes. Ora vejamos: no stand do Mali, encontramos uma cadeira com um elefante em baixo relevo, e com uma etiqueta autocolante a dizer "Made in Mali", enquanto dois metros mais abaixo encontramos uma cadeira aparentemente idêntica mas, atenção, as aparências iludem: um bom conaisseur deve procurar os minimos detalhes e, lá está, esta possui uma etiqueta que revela proveniência distinta "Made in Zimbabwe". São estes pequeno detalhes que levam a que muitos individuos, leigos, pouco conhecedores de artesanato africano sejam enganados, e comprem gato por lebre, ou seja, congas dos Camarões como se fosse do Gana. 


Stands sul americanos. Estes são os melhores. Temos aqui uma série de produtos tipicamente ameríndios, que qualquer indio da família linguística Bororo, ou até mesmo Nambikwara não dispensa para o seu dia-a-dia. Ele são bandeiras tipicamente peruanas do Bob Marley, capas para telemóvel Nokia com o Michael Schumacher tipicamente bolivianas, fitas para por as chaves ao pescoço da Yamaha tipicamente chilenas, putas tipicamente brazileiras. De tudo um pouco. Aliás, em vários mitos de origem sul-americanos, o herói cultura, vestido com um camisa amarela e verde, com o Ronaldo todo desfigurado devido à má qualidade da impressão, telefona do seu nokia 1 para um parente que emigrou para a europa, enquanto utiliza uns ray ban colombianos e bebe um caipirinha tipicamente brazileira produzida com produtos tipicamente americanos. Podemos tambem encontrar os famosos fios e pulseiras que brilham no escuro, os cintos de bicos, os cachimbos de água em plástico, os cds de musica supostamente india, os carregadores e capas para telemóvel, enfim, todos aqueles produtos em que pensamos quando se trata da América do Sul.


Destas feiras de artesanato, há a destacar a excelente organização e o critério rígido na escolha dos tendeiros - não há um com ar de que não seja contrabandista, extra-comunitário, ou que esteja fugido à interpol. E para mostrar que as aparências enganam, vamos acreditar que os polos Lacoste expostas no stand do paraguai eram mesmo verdadeiramente paraguaios, e que a barra energética que nos tentaram vender no stand da colômbia era mesmo chocolate.


Outro ponto a realçar nestas feiras, é o trabalho de investigação, a tentativa de oferecer ao público artesanato realmente tipico das zonas em questão. Vê-se que quem organiza estas feiras é um conaisseur daquilo que está a fazer. Aliás, os cds de musica peruana produzido num daqueles órgãos mágicos que nos anos 80 proliferavam em todos os lares portugueses, é, a par com os spectrum e comodores, um exemplo do que de melhor o Perú tem para nos oferecer. Como é sabido, os deuses incas, os próprios peruanos, eram ávidos consumidores de tecnologia: eram famosos os torneios, em Machu Pichu, do jogo de cassetes "Emilio Butragueno", tendo o próprio deus Ynti, distinguido-se por ganhar a 1ª copa américa! Ou seja, na organização destas feiras de artesanato privilegia-se mesmo produtos artesanais, feitos à mão, produtos representativos dos países de onde proveem - como aquelas t-shirts com chamas, tipicamente uruguaias.


Um ponto negativo, foi a falta de produtos tipicamente portugueses, como as matrioskas da senhora de fátima e os 3 porquinhos, do Whiskey de Sacavém, das porcelnanas chinesas de idanha-a-nova, dos iogurtes longa vida, dos cds de musica açoreana cantada pelo Sandro G, das putas de monsanto, das capas para telemóvel com o Pedro Lamy e Pedro Matos Chaves, enfim, todos esses produtos tipicamente portugueses.


Um destaque tambem para o cu da brazileira que fazia a demonstração dos aspiradores mágicos e do corta batatas cenouras pepinos tomates tudo logo no primeiro stand.


 


PS - Nos stands marroquino e egípcio - não sei qual era o marroquino e qual o egípcio, mas eles estavam lá - não foi possível entrar, devido ao ar pestilento que os produtos feitos de pele de camelo emanavam. Uma pestilência tal, que os próprios sarracenos que lá se encontravam a vender se viam obrigados a utilizar uma bomba para a asma - um bongo - de modo a conseguir sobreviver.

publicado por товарищ V. E. às 07:51
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3 comentários:
De raindogs a 15 de Agosto de 2004 às 08:01
Já fui a uma feira dessas, mas alguem teve a feliz ideia de fazer um evento mais organizado...resultado...foi numas tendas fechadas em que os expositores dos queijos e enchidos estavam ao lado dos que vendiam peles de camelo e afins.... Ainda hove não posso ver um camelo ou queijo da Serra.
De Youssuf Amar Kone a 10 de Agosto de 2004 às 21:11
Ós páh! Atão eu comprei todos os meus artesanato feito ao mão no sevilha, tudo no armazém por uma nota preta - tava suja - e agora vem pá ki dizé ké farso? Eu vou ti contá: olhá que o jogo do tetris que eu vendo foi mesmo feito nos zaire, num fábrica em N’Djamena.
É tudo do típico.
até o plástico é feito nos zaire.
De pekala a 9 de Agosto de 2004 às 14:39
eu gosto de feiras,adoro!mas a culpa não é minha,este gene passa de mães para filhas...

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