Pai_dos_Povos

Quarta-feira, 8 de Junho de 2005

Apologia da violência

É facto certo e sabido que a violência que abunda hoje nas nossas televisões, jogos de computador, e por aí em diante, é má para as nossas criancinhas, pois torna-as também violentas. Dizem-no associações de pais, Igreja Católica Apostólica Romana, entre outras, e mais entidades, além de psiquiatras e psicólogos infantis com curso da farinha Amparo. Aliás, dizem, por causa disso o mundo está cada vez mais violento, cada vez há mais guerras, insegurança na rua, e cenas assim. Sim, porque antigamente era uma paz, a humanidade andava toda aos abraços e aos beijinhos. A espada até foi inventada o ano passado, por um adepto de jogos de computador com muito sangue, e o crime violento é outra invenção recente.


 


Mas qual é a razão de as criancinhas do nosso tempo serem influenciáveis, ao contrário dos adultos, que podem ver essas coisas sem se deixarem influenciar (como se sabe, a taxa de criminalidade é especialmente alta na faixa etária entre os 0 e os 5 anos)? Acontece que, segundo os tais psicólogos infantis farinha Amparo, as crianças não conseguem distinguir a fantasia da realidade. Ou seja, para um puto, ver o van Damme a matar a tiro aquele russo, e depois no filme da semana seguinte lá está ele, novinho em folha, ao box com o Rambo, isso quer dizer que também pode andar ao tiro a alguém, que esse alguém vai estar fino para andar ao murro numa semana. Ou então, assume que pode pôr dinamite pela goela abaixo do gato lá de casa, depois de ter visto o Tom & Jerry. Ora, eu até acredito que esses senhores tenham sido assim quando eram pequenos, ou que os seus filhos não sejam suficientemente inteligentes para distinguir entre o Terminator e o governador da Califórnia. Mas eu quando era puto lembro-me bem de perceber que se serrasse o gato ao meio ele não aparecia em forma no episódio seguinte.


Quanto aos cavalheiros que continuarem a preferir andar na cruzada contra a violência, pois bem, boa sorte, se calhar os vossos putos bem precisam, senão ainda nos saem uns psicopatas, mas aconselhava qualquer coisa mais fácil: televisão desligada, fora do alcance dos putos, controlo remoto escondido. Computador com palavra de acesso (esta é capaz de ser mais difícil, porque o seu filho deve perceber mais disso que você). Mas nalgumas famílias, às vezes (só às vezes) é mais fácil dizer que não, e as crianças, às vezes, ainda obedecem... mas se calhar já estou a viver num mundo utópico.


 


Mas, como está entendido no título desta posta, venho hoje fazer a apologia da violência. Antes, não vou defender a violência per se, mas a exposição de violência nos media, e principalmente nos jogos de computador. E à boa maneira dos Teleevangelistas, fá-lo-ei através de uma parábola, contando uma história, com alguma liberdade criativa, mas em todos os pontos verdadeira e me foi contada na primeira pessoa.


A pessoa que me contou tinha oito anos de idade quando tudo aconteceu. Em casa, tinha tido recentemente acesso a uma consola de jogos, onde o único jogo que podia jogar era algo como o Street Fighter (peço desculpa se é de há dois séculos atrás, mas estou mesmo desactualizado), mas assim mais para o Spectrum (e já é favor), a preto e branco, com duas figuras que faziam lembrar bonecos, e em que se carregava em muitos botões ao mesmo tempo e saiam muitos socos e pontapés. Claro que, nos anos '80, para qualquer criança (ou adulto, concerteza...) era uma festa ter o que quer que fosse em casa. A minha amiga passava metade do tempo livre a jogar, e a outra metade a praticar contra a mobília da casa a arte marcial recentemente aprendida.


Na escola, tinha um problema: era uma rapariga com carácter, o que é algo difícil de encontrar em crianças nesta idade (ou em adultos, independentemente da idade). Havia na turma a "Delegada de Turma", que era também a líder do grupo da "elite" da turma. Havia depois os outros (o povo), e por fim havia uma rapariga pequena e tímida, que era rejeitada pelo "grupo", e logo pela turma, depois gozada e os "et ceteras" do costume. A minha amiga fez-se amiga dela, ganhando assim o antagonismo, a inimizade, e o ódio, primeiro da líder, depois, obviamente, do "grupo" e da turma.


Farei aqui um interregno, para propor aos meus leitores uma questão: quem é que estava a agir incorrectamente? A minha amiga, no seu desejo de bater em alguém, ou os elementos do "grupo", na sua atitude de exclusão social? Ela, apenas com realidade virtual, ou eles, com aquele tipo de atitude que vos fez também a si, meu caro leitor, ou minha cara leitora, quando era um jovem estudante do ensino básico (sim, pois não é possível que você, tão boa alma, tenha pertencido ao grupo de fascistas elitistas da turma) sofrer? Mas continuemos...


Num dia como outro qualquer, ela chega à sala e vê que um dos elementos do "grupo", o gorila da turma, e um dos preferés da líder, se estava outra vez a meter com a sua tímida amiga. Ela disse-lhe de forma educada que deixasse a amiga em paz ou ia para casa num envelope. Ele olhou, deslocou-se ao local onde estava a minha amiga, pôs-lhe o punho perto do nariz, e disse «Cheira isto...». Neste momento a minha amiga teve um blackout. Viu talvez pequenas figuras digitais humanóides a preto e branco aos chutos e socos, não sei. Quando voltou a si, tinha o braço direito esticado com a mão fechada em punho, e o "tipo mau" deitado no chão à sua frente, com o nariz inchado. A reacção dele, quando se levantou, foi pegar na mochila da minha amiga e correr pela sala, espalhando o conteúdo e berrando, num ataque de histeria que só foi acalmado pela professora sob ameaça de chamar uma ambulância se ele não se acalmasse (professoras destas já não se fazem... por outro lado, infelizmente, homens histéricos produzem-se hoje em dia em série).


 


Então, gostava de saber o que têm a dizer agora os psicólogos, antropólogos e outros ólogos. A exposição à violência é má, sim senhor. Mas só para certas pessoas... de inteligência alternativa. Assim como o oxigénio é um veneno poderoso, concerteza... para certas bactérias.


 

publicado por товарищ V. E. às 23:42
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7 comentários:
De samael lateralus a 12 de Junho de 2005 às 18:18
aki vive-se e vamos todos pa revoluçao d cocktail na mão ou então ou então fazer jogging pras muralhas da china...e coisas assim...
De JVieira a 12 de Junho de 2005 às 01:59
Ó Lady Athamay, volte lá para a escola outra vez. O seu português é uma dor de alma!
De Lady Athamay a 11 de Junho de 2005 às 07:36
Gay-atos são mas é voçês e os vossos actos.
Que página tão nogenta! Toda vermelha e cheia de comunas assassinos, realmente faz doer os olhos.
Matem-se mas é e fassão um favor à nação portuguesa!
De Acolito a 10 de Junho de 2005 às 09:06
Damos, e não "dâ-mos". Mas...petizes? podias ter utilizado uma palavra menos apaneleirada, como, p.ex., gayatos.
De raindogs a 10 de Junho de 2005 às 08:18
A esclusão social é apenas um dos muitos factores que pode despoletar violência (assim como a frustração e afins). No entanto, o busilis da questão será sempre a parte moral e/ou a atenção que dâ-mos aos petizes.
De pataphisico_azul a 10 de Junho de 2005 às 02:11
O jogo em causa era mais do tempo das moedas de 50 centavos (centavos de escudo, bem entendido...). Mas a amiga em causa era mais da regiao das moedas de 10 Kopekii...
De astropastor a 9 de Junho de 2005 às 15:16
Ahh bom e velhinho StreetFighter, chegava sempre ao fim do jogo com qualquer lutador, e não posso dizer que me tenha tornado numa pessoa violenta. Mas agora que penso nas moedas de 50 paus, que a máquina me comeu, apetecia-me voltar atrás e esmurrá-la, pontapea-la, cuspir-lhe em cima, insultá-la ...

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